Walt Disney - Paperman
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
sábado, 9 de fevereiro de 2013
Momento Herbert Vianna
"Todas as formas de se controlar alguém
só trazem um amor vazio."
"Eu ainda lembro
Do dia em que eu te encontrei
Eu ainda lembro
Como era fácil viver ...
Ainda lembro."
"Eu quis querer o que o vento não leva
Prá que o vento só levasse o que eu não quero
Eu quis amar o que o tempo não muda
Prá que quem eu amo não mudasse nunca."
só trazem um amor vazio."
"Eu ainda lembro
Do dia em que eu te encontrei
Eu ainda lembro
Como era fácil viver ...
Ainda lembro."
"Eu quis querer o que o vento não leva
Prá que o vento só levasse o que eu não quero
Eu quis amar o que o tempo não muda
Prá que quem eu amo não mudasse nunca."
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
O que falar para alguém que está prestes à morrer?
Há dias tive contato com o texto abaixo. Me deixou incomodado. Repensei tantas coisas, mas é óbvio que não me esqueci do que vivi há pouco tempo. O texto é uma reflexão sobre a vida, mesmo que fale de morte. Espero que de alguma maneira ele possa tornar os dias que nos restam ainda melhores.
Não tenho muito, ou talvez tenha, mas não saiba, o que dizer sobre o diálogo entre o psicólogo Frederico e o paciente terminal R. Só peço a leitura, a reflexão será inevitável. Se alguém quiser compartilhar as sensações e sentimentos pós-leitura só colocar nos comentários.
=)
Meu nome é Frederico Mattos, tenho 31 anos, sou psicólogo e escrevo o http://www.sobreavida.com.br/, um blog sobre coisas da vida e relacionamentos. Um leitor me enviou esse email:
Não tenho muito, ou talvez tenha, mas não saiba, o que dizer sobre o diálogo entre o psicólogo Frederico e o paciente terminal R. Só peço a leitura, a reflexão será inevitável. Se alguém quiser compartilhar as sensações e sentimentos pós-leitura só colocar nos comentários.
=)
"O que falar para alguém que está prestes à morrer?" - Nota de Falecimento de R.
por Frederico Mattos
Meu nome é Frederico Mattos, tenho 31 anos, sou psicólogo e escrevo o http://www.sobreavida.com.br/, um blog sobre coisas da vida e relacionamentos. Um leitor me enviou esse email:
“Olá Fred,Já que a Dona M. tomou coragem e confessou que nunca amou o marido de 30 anos eu tomei a liberdade de mandar esse e-mail.Enviei logo cedo após receber meus remédios para que você pudesse ler logo que acordasse. Espero que não se importe.Estou há uma semana internado num bom hospital e entre um mal-estar e outro tenho lido seu blog. Logo que me internei um amigo me disse: acho que agora é hora de pensar sobre a vida. Sou viciado em tecnologia, peguei meu iPad (foi a única coisa que pedi que os médicos não me tirassem) e digitei no Google “sobre a vida”. Surgiu seu blog e confesso que pensei “mais um blog de merda falando blábláblá”. Não dei confiança, mas depois de não achar nada muito interessante voltei ali.Tenho 28 anos, minha barba cultivada com gosto para que eu aparente mais idade está caindo, isso me aborrece.A questão que me intriga é que vou morrer e não sei o que fazer diante da morte. Vou morrer em breve, talvez eu não receba sua resposta. Claro que não estou pendente disso para morrer (isso está infelizmente fora de minhas mãos), mas filhadaputamente o padre que veio me visitar e não gostei do que ouvi. Sei que ele trouxe palavras bondosas, mas tão vazias de real sentido para mim que aproveitei que eu estava vomitando que nem um desgraçado para enxotar aquele velho de batina. Minha doença me consome rapidamente e não acredito em nada para além desta vida, nem preciso acreditar. Sou ateu (o máximo de fé que tenho é fazer figuinhas, pois mamãe me ensinou e lembro dela quando faço) e sinceramente não me culpo por isso.Tive uma vida cheia de acontecimentos, aproveitei tudo mesmo, sem exageros ou excentricidades. Minha doença é um tipo de problema genético, raro e fatal. Os médicos não afirmam nada (eles sempre estão um pouco emburrados), mas já pesquisei na internet e realmente acho que vou bater as botas mais rápido do que eu queria.Fiquei pensando o que você, como psicólogo, teria a dizer para alguém que tem algumas horas ou dias de vida ainda pela frente? Se eu não conseguir ler a resposta espero que ajude alguém nas mesmas condições ou que ajude qualquer um.Abraço,R.”
Caro R.
Acho que não estou em posição de aconselhar alguém que está em uma condição única e porque não dizer privilegiada como a sua. Sim, privilegiada. Estar diante do próprio fim e fazer a pergunta certa não é tão simples.
Já que você digitou no Google SOBRE A VIDA, vou falar algumas coisas que penso sobre a vida. Espero que sirvam.
Na vida eu finjo que não tenho medo da morte faz muito tempo. Eu tenho construído um castelo de certezas, de virtudes e de sentido para simplesmente negar o fato de que vou morrer, assim como você.
Na vida vi que todas as amizades que tenho são para me deixar menos sozinho comigo mesmo. Além disso evitar saber que tudo irá acabar de um momento para o outro. Mas elas dão um colorido diferente para o passar dos anos. Algumas valem a pena cultivar, outras são passageiras e deixam uma marca, algumas temos o dever moral de levar para a vida inteira.
Na vida não tenho certeza de nada e noto que a maior parte das pessoas não tem. Mas não perdemos a irresistível atração em fingir que sabemos de tudo. Antes eu ouvia os bons conselhos, agora duvido deles. Sempre me parecem demasiado polidos ou conservadores. Como aquelas tias velhas que tem medo de atravessar a rua e recomendam que você não faça o mesmo.
Com as críticas ainda tenho dificuldades, confesso que quando me dizem que sou metido a sabichão ainda fico meio doído. Acho que é pelo fato de que a pessoa ainda não me conheceu de verdade e me julga pelas minhas defesas. A prepotência que me resta é só um jeito falsamente forte que encontrei para que eu não seja inundado pelo mar de amor que sinto, mas me fragiliza.
Pelo visto você é uma pessoa que foi agraciada pelo bem estar financeiro. Isso é excelente, com o tempo aprendi que o dinheiro pode ser um grande amigo de boas realizações. Que ele é a chave mestra que reflete o fruto do meu trabalho e que me abre portas para conhecer coisas que eu nunca poderia sem ele. O dinheiro não é meu inimigo e nem meu amigo, apenas um cúmplice daquilo que quero ser. O meu dinheiro sou eu em forma de notas. O dinheiro de cada um reflete o que a pessoa é.
Também me parece que você é muito amado pelas pessoas. Essencialmente cercado de pessoas boas que te recomendam no momento mais difícil que pense sobre a vida. Isso parece que é a grande fórmula para viver e morrer feliz. Nos cercamos de muitas pessoas que nos fazem mal, nos colocam para baixo e subestimam nossa capacidade. Elas querem nos ajudar de um jeito que reforça nossa infantilidade e passividade na vida. Com o tempo procurei selecionar as pessoas do meu convívio. Conheci amigos maravilhosos, terminei relacionamentos que me faziam mal e cultivei bons hábitos como me encontrar sempre que possível com as pessoas que eu amo. Meus livros que eu tanto adorava ler com exclusividade absoluta agora estão um pouco de lado. Ainda os amo, mas livros sem pessoas são apenas folhas sem sentido. O verdadeiro livro que sempre quis escrever já está sendo escrito no longo dos meus dias. Acho que o seu livro não-publicado deve ter excelentes páginas e narrativas memoráveis. Deixe que isso te alegre, inclusive agora.
Com o tempo eu percebi que a cereja do bolo da minha vida não foi composta de grandes eventos ou celebrações. Mas foi no tecido invisível dos minutos discretos que ninguém reparava. Eu sempre soube que aqueles pequenos gestos de gentileza é que realmente fazem a diferença. Acordar um pouco mais cedo para dar a mão para uma pessoa. Levantar da cama antes e pegar o copo d’água. Consolar uma lágrima que não foi anunciada. Pequenas coisas pelas quais você não vai ganhar nenhum prêmio ou recompensa e ainda assim devem ser feitas.
Meu caro R. tenho medo, muito medo de tudo. Medo de falhar, fracassar, decepcionar, fraquejar, deprimir até parar com tudo e ficar maluco, as vezes enfrento dias difíceis (na minha cabeça) que penso que não vou aguentar. Mas administro esse medo da seguinte maneira, sei que são apenas medos, nada além disso. Um jeito meio menino de fantasiar as coisas maiores do que realmente são só para que depois eu brinque de super-homem. Afinal quanto maior meu obstáculo, mais eu acho que fui invencível na superação.
Hoje tenho rido muito mais de mim, sou um desastrado. Não sei cortar uma melancia sem sujar toda a pia e ela ficar parecida com um leque torto e feio. Me perco no transito, mesmo com GPS. Falo coisas fora de hora. Confesso meu amor antes do tempo. Tolero coisas intoleráveis por mais tempo que devia. Sou um bobo incorrigível. Mas, afinal, essa é a versão improvisada de mim mesmo, sei que com o tempo esse eu de hoje será uma lembrança pálida no eu de amanhã. Então rir de mim me ajudou a não me magoar tanto ou me levar tão à sério), afinal todos somos rascunhos da vida. Perdidos como ratos pelados.
Lidar com pessoas sempre foi um desafio para mim. Sou sensível ao extremo, um sorriso me levanta e um olhar de desaprovação me derruba. Comecei a entender, a duras penas que não posso ter controle do que os outros sentem por mim. Se você me odeia problema seu, se me ama também. Pode parecer uma visão radical ou uma fala grosseira. Mas se pudesse me ouvir agora dizendo isso seria com uma voz doce e com sorriso nos olhos. O ódio que sente por mim é responsabilidade sua, o amor que sente também. O máximo que posso fazer é dançar em volta do seu coração até que seu ódio se acalme e me veja humano (com o que tenho de bom incluído) e seu amor se consolide e me veja humano (com o que tenho de pior incluído).
Acho que o mais difícil de morrer deve ser imaginar que não veremos mais aqueles que amamos. Quando trabalhei com pessoas com câncer (doença nem sempre rápida e fatal) aprendi que a melhor despedida acontece com as relações que foram mais completas e sem falsidades. Se tivemos uma relação truncada, conflituosa e cheia de pendências o luto é mais difícil. Nesse momento tente diminuir as suas pendências e diga o que vem no fundo do seu coração para os outros. Não hesite, você não tem mais nada a perder. Literalmente.
Posso dizer que o amor e o trabalho sempre me guiaram. Mas sei que o amor é um enigma. Hoje me parece muito mais um grande campo em que muitos eventos acontecem por ali. Toda a vez que tentei cercar demais a pessoa amada ela se foi, deixar ela pra lá em demasia também não funcionou. A melhor garantia que posso oferecer hoje é que onde eu estiver estarei ali.
Já fique muito preso ao passado e tudo o que não funcionou ali. Também já fiquei afoito para que o futuro chegasse logo e ele nunca chegou quando eu queria. Então decidi colocar o rabo no meio das pernas e viver aquilo que eu consigo hoje. As vezes minha cabeça me engana e tenta me sequestrar para frente ou para trás. Então eu digo para minha mente “ei, dá uma olhadinha nesse momento entediante, podemos fazer algo com isso, que tal?” e numa fração de segundos a minha mente faceira corre para brincar comigo no presente de novo.
Sou tão jovem quanto você, então não encare como presunção tudo o que eu disse. Posso garantir que existem vidas muito mais interessantes que a minha para você tomar por exemplo. Minhas grandes vivências aconteceram mais no fundo do meu coração do que na vida concreta. No entanto, foi a vida que me coube viver e que me satisfez até agora. A sua vida é a melhor que você pode viver, olhe com compaixão por ela, nada acrescente nela e muito menos mutile. Tudo ali é do tamanho que devia ter. Até sua barba que se despediu de você.
Quando olhamos uma vela temos a ilusão de que ela irá apagar quando a cera chegar ao fim. As vezes acaba antes, outras a luz continua depois. No seu caso, sua vela está te surpreendendo, em alguns minutos. A minha pode me surpreender, assim com todas as pessoas que amamos. Estamos no mesmo barco.
Minha curiosidade (mal que não quero tirar de mim) vai me dizer para que dê um retorno caso tenha conseguido ler. Sei que os leitores do blog vão pedir o mesmo. Então se puder, mande um sinal de fumaça. Sei que esse texto vai ajudar mais quem ficará vivo (ou finge que está vivo como eu) por um pouco mais de tempo que você. Mas se te ajudar em algo, já fico mais que satisfeito.
Ah, se eu pudesse falar uma última coisa seria morra o mais vivo que puder…
Um abraço meu caro, longa vida enquanto ela existir!
_______
Hoje recebo esse recado:
Meu irmão pediu que eu enviasse esse e-mail para você assim que falecesse. Ele me mostrou o texto do seu blog emocionado e falou coisas muito bonitas sobre o amor que sentia por todos nós e se desculpava se nem sempre estava tão presente quanto gostaria. Acrescento que ele partiu essa madrugada de sexta-feira tranquilamente e sem dor, abraçado com papai e seu iPad (inseparável, aposto que vai procurar o Steve Jobs). Sentiremos muito a falta daquele menino que sempre tinha uma palavra carinhosa e um sorriso pronto nos lábios.
"Querido Fred
Fiquei comovido com a honestidade em revelar aspectos da sua vida de um jeito tão afetuoso, gentil e claro. Eu também não sei cortar melancia direito. Achei de extremo carinho você não tentar me convencer de nada como fez o padre.
Nas suas palavras vi que a maior expressão do espiritual é a própria vida e as pessoas à nossa volta: o amor que me une à minha família e os meus amigos. Pensando assim, o meu quarto estava absurdamente lotado de coisas espirituais agora à pouco e pedi que todos me deixassem à sós por minutos para poder escrever essa mensagem. Prefiro que ela seja entregue à você quando eu morrer. Agora posso falar sem peso sobre a morte, pois sei que deixarei meu legado com todos: minha memória.
Meus amigos trouxeram um violão e me cantaram músicas que eu gosto (uma delas).
Titãs - Epitáfio
Meu pai fez bolo de laranja com suco de cajú de dar lombriga. Minha irmã recitou um poema de Vinícius de Moraes que me emociona. Minha namorada só chora e me beija (energia feminina pura) - bem que eu podia durar mais uns dias ;). Meu primo trouxe um pendrive com imagens do meu cachorro latindo para a camera. Mamãe já falecida, me veio fortemente na memória. Não tenho a pretensão de reencontrá-la, pois no meu coração ela nunca partiu. Estou meio sensível hoje! heheheh
Obrigado pela rapidez e prontidão em me responder, nem esperava um post para mim (mentira) e senti o carinho dos seus leitores. Se puder crie uma nota de falecimento no Facebook e peça a eles que compartilhem seu texto com todo mundo (quero ser um morto virtual famoso rsrsr). As pessoas à sua volta tem sorte em tê-lo em suas vidas, pena não ter sido seu paciente ou amigo. Fucei na internet (sou stalker) e vi que fará 31 anos em breve, parabéns psicólogo!
Após cremado, quando as cinzas forem atiradas ao mar digam: aqui nada um homem feliz! :)
Seguirei seu conselho: quero estar bem vivo quando eu morrer!
Um abraço e longa vida a você também...
Do amigo que parte, R."
Hoje meu amor fica sem palavras e como foi pedido por R. se quiser compartilhe essa nota de falecimento.
Momento Clarice Lispector
Das Vantagens de Ser Bobo
(Clarice Lispector)
O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.
(Clarice Lispector)
O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Felicidade...
Hoje apenas posso relatar que tudo caminha com dificuldades. Novos acontecimentos vem atormentando minha família e a minha paz nos últimos meses. E eu me perco no meio de todos os possíveis futuros traumas que ainda estão por vir. Sofro com o que vivo e me antecipo no que poderá vir.
Adiantamento de preocupações. Lógico!, ansioso e agoniado quero estar precavido para aquilo que desconheço. O problema é que sendo assim, parece que o golpe é ainda mais forte. Me pego em um diálogo longo e tenso com a solidão. Ela não me assusta tanto quanto antes. Hoje sei que ela não mata, apenas cria algumas fraturas e cortes profundos que cicatrizam e curam com repouso e os remédios certos.
Dói, mas toda vez que isso passa sempre chegam boas novas. Aprendi, com a perda física da minha mãe não existirá nenhuma outra dor que seja tão incômoda ou insuportável. Se sobrevivo ao martírio de dias de silêncio e tristeza sem sua presença, não existem dores que sejam maiores que essa. Pensando assim sigo vivendo um dia por vez, ou sobrevivendo a cada novo dia.
Mas do que posso me queixar?
A vida sempre me foi muito generosa. Me deu mais sonhos do que ilusões, mais afago do que dor. Não me fez melhor do que ninguém para que eu desconhecesse o gosto de uma lágrima. A vida apenas me fez um homem que foi e é muito amado. Sem privilégios, tive apenas oportunidades e ferramentas para o trabalho e todas as conquistas que tive.
Frustração também me veio, acompanhada de doses duplas de esperança. Mas não foi por isso que eu não me desesperei. Algumas fraquezas sempre me acompanharam, mas algo inexplicável a todo momento recompôs meu ânimo. Talvez porque no fundo soubesse que todas as descidas impulsionaram as subidas. Fé em Deus... pé na tábua.
Os céus me protegeram e protegem em cada novo amanhecer. Meu anjo guardião vela cada noite de sono (além daquelas em que passo desperto). Meu tempo é vivido em cada segundo. Pelo que tenho, tive, mas principalmente pelo que terei.
Foram 27 anos de tantos bons corações ao meu redor, uma hora precisaria ser triste, para que a felicidade visitasse outros lares. Só não demora felicidade, pois meu coração sente muito a sua falta.
Paulinho Moska - Felicidade
Adiantamento de preocupações. Lógico!, ansioso e agoniado quero estar precavido para aquilo que desconheço. O problema é que sendo assim, parece que o golpe é ainda mais forte. Me pego em um diálogo longo e tenso com a solidão. Ela não me assusta tanto quanto antes. Hoje sei que ela não mata, apenas cria algumas fraturas e cortes profundos que cicatrizam e curam com repouso e os remédios certos.
Dói, mas toda vez que isso passa sempre chegam boas novas. Aprendi, com a perda física da minha mãe não existirá nenhuma outra dor que seja tão incômoda ou insuportável. Se sobrevivo ao martírio de dias de silêncio e tristeza sem sua presença, não existem dores que sejam maiores que essa. Pensando assim sigo vivendo um dia por vez, ou sobrevivendo a cada novo dia.
Mas do que posso me queixar?
A vida sempre me foi muito generosa. Me deu mais sonhos do que ilusões, mais afago do que dor. Não me fez melhor do que ninguém para que eu desconhecesse o gosto de uma lágrima. A vida apenas me fez um homem que foi e é muito amado. Sem privilégios, tive apenas oportunidades e ferramentas para o trabalho e todas as conquistas que tive.
Frustração também me veio, acompanhada de doses duplas de esperança. Mas não foi por isso que eu não me desesperei. Algumas fraquezas sempre me acompanharam, mas algo inexplicável a todo momento recompôs meu ânimo. Talvez porque no fundo soubesse que todas as descidas impulsionaram as subidas. Fé em Deus... pé na tábua.
Os céus me protegeram e protegem em cada novo amanhecer. Meu anjo guardião vela cada noite de sono (além daquelas em que passo desperto). Meu tempo é vivido em cada segundo. Pelo que tenho, tive, mas principalmente pelo que terei.
Foram 27 anos de tantos bons corações ao meu redor, uma hora precisaria ser triste, para que a felicidade visitasse outros lares. Só não demora felicidade, pois meu coração sente muito a sua falta.
Paulinho Moska - Felicidade
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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
2012, o ano do amor
De 2012 só me recordo do amor. Tive ao meu lado um grande amor, principalmente quando perdi meu amor maior (minha mãe). Por isso só posso falar que esse foi um ano de amor. Amor em todos os tons, sons, gostos, texturas, aromas, calores, tamanhos e intensidades.
Mas se perdi minha mãe, como pode ter sido um ano de amor? Por todo o amor que recebi de volta. De quem esteve ao meu lado todos os dias, dando amor, compartilhando os choros e o colo aconchegante e seguro pra me refugiar; dos meus amigos que me consolaram e ajudaram; da minha família e principalmente do meu pai ao aprendermos a nos amar ainda mais. Pode parecer ridículo, mas também recebi de minha mãe. Sua partida deixou um universo de amor dentro de todos os que a amavam.
Termino o ano com uma lista de tristezas e perdas, mas outra de alegrias e realizações também. Nada irá substituir as ausências (em especial da minha mãe), mas devemos viver um dia por vez. Amanhã nascerá outro Sol, outro dia, outro mês, outro ano, outra chance de ser feliz mais uma vez.
Ultimamente não tenho estado na minha melhor condição mental e espiritual, por isso não vou me alongar no último post do ano. Não tenho muitas expectativas para 2013. Espero que seja um ano de saúde e paz. Que tenhamos coragem e força pra enfrentar o que está por vir e fé para não desistir.
Feliz 2013!
Maria Bethânia - Tocando em Frente
Mas se perdi minha mãe, como pode ter sido um ano de amor? Por todo o amor que recebi de volta. De quem esteve ao meu lado todos os dias, dando amor, compartilhando os choros e o colo aconchegante e seguro pra me refugiar; dos meus amigos que me consolaram e ajudaram; da minha família e principalmente do meu pai ao aprendermos a nos amar ainda mais. Pode parecer ridículo, mas também recebi de minha mãe. Sua partida deixou um universo de amor dentro de todos os que a amavam.
Termino o ano com uma lista de tristezas e perdas, mas outra de alegrias e realizações também. Nada irá substituir as ausências (em especial da minha mãe), mas devemos viver um dia por vez. Amanhã nascerá outro Sol, outro dia, outro mês, outro ano, outra chance de ser feliz mais uma vez.
Ultimamente não tenho estado na minha melhor condição mental e espiritual, por isso não vou me alongar no último post do ano. Não tenho muitas expectativas para 2013. Espero que seja um ano de saúde e paz. Que tenhamos coragem e força pra enfrentar o que está por vir e fé para não desistir.
Feliz 2013!
Maria Bethânia - Tocando em Frente
sábado, 29 de dezembro de 2012
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
E a vida continua...
Véspera de Natal, mas não será tão fácil e alegre comemorar por aqui. O dia amanhece dando sinais de que será triste e arrastado. Se fosse um outro feriado santo talvez seria uma sexta-feira da paixão. Mais do que presente em sua ausência, minha mãe tem estado em sonhos comigo. Não que sonhar seja ruim, o problema sempre esteve em acordar.
E despertar em datas assim, tão familiares, piora tudo e fica fimpossível não se lembrar dela. A imagino na cozinha preparando pratos para a ceia, ligando para as minhas tias, para a minha avó e me acordando para irmos comprar presentes e a batata palha, que sempre faltava.
Mas hoje não será assim... e preciso me acostumar.
Não bastando minha dor, a ceia de hoje também será de luto para meus primos. Três meses antes da perda da minha mãe, eles perderam seu pai. Seremos quatro órfãos (eu, meu irmão e meus dois primos), dois viúvos (meu pai e minha tia) e meus avós chorando a perda de uma nora e um genro. Não teríamos ceia, mas apesar dos pesares celebraremos pelos que ainda estão aqui. Uma difícil e insuportável lição da vida, ela continua e não para por caprichos ou lutos de quem quer que seja.
Quero que cada um que ler isso entenda o dia de hoje como uma data para agradecer e se comemorar a vida, celebrar a família, os amores e principalmente se alegrar pela presença de cada um dos seus ao nosso lado. A mãe coruja, o tio chato, a cunhada bonita, o sobrinho levado, a namorada ciumenta, o irmão preguiçoso, a tia nojenta, o primo engraçado, o noivo esquecido, a avó religiosa, o avô animado...
A vida é tão curta. Leva quem amamos e nos deixa com a triste sensação de que devíamos e podíamos ter feito muito mais. Ter amado, vivido, dito uma centena de coisas, ter feito declarações de amor, ter deixado de lado as discussões e ter perdoado. Minha mãe se foi, mas o amor ficou aqui nos enfeites da casa, na saudade doída e nas boas lembranças que por vezes nos faz chorar, nos faz sorrir e esquecer que temos uma vida pela frente.
Não digo que seja fácil. A cada dia parece que piora, que a dor aumenta. Existe dentro de mim uma louca certeza de que minha mãe vai chegar de viagem a qualquer momento, mas infelizmente não vai ser assim. Se alguém também vive um luto, lembre-se que, mesmo nas tristezas e nos sofrimentos, não somos desamparados nem esquecidos por Deus. Por mais que algumas vezes a gente pense que Ele nos abandonou.
Feliz Natal!
Muita paz e luz pra todos nós.
Mart'nália - Benditas
E despertar em datas assim, tão familiares, piora tudo e fica fimpossível não se lembrar dela. A imagino na cozinha preparando pratos para a ceia, ligando para as minhas tias, para a minha avó e me acordando para irmos comprar presentes e a batata palha, que sempre faltava.
Mas hoje não será assim... e preciso me acostumar.
Não bastando minha dor, a ceia de hoje também será de luto para meus primos. Três meses antes da perda da minha mãe, eles perderam seu pai. Seremos quatro órfãos (eu, meu irmão e meus dois primos), dois viúvos (meu pai e minha tia) e meus avós chorando a perda de uma nora e um genro. Não teríamos ceia, mas apesar dos pesares celebraremos pelos que ainda estão aqui. Uma difícil e insuportável lição da vida, ela continua e não para por caprichos ou lutos de quem quer que seja.
Quero que cada um que ler isso entenda o dia de hoje como uma data para agradecer e se comemorar a vida, celebrar a família, os amores e principalmente se alegrar pela presença de cada um dos seus ao nosso lado. A mãe coruja, o tio chato, a cunhada bonita, o sobrinho levado, a namorada ciumenta, o irmão preguiçoso, a tia nojenta, o primo engraçado, o noivo esquecido, a avó religiosa, o avô animado...
A vida é tão curta. Leva quem amamos e nos deixa com a triste sensação de que devíamos e podíamos ter feito muito mais. Ter amado, vivido, dito uma centena de coisas, ter feito declarações de amor, ter deixado de lado as discussões e ter perdoado. Minha mãe se foi, mas o amor ficou aqui nos enfeites da casa, na saudade doída e nas boas lembranças que por vezes nos faz chorar, nos faz sorrir e esquecer que temos uma vida pela frente.
Não digo que seja fácil. A cada dia parece que piora, que a dor aumenta. Existe dentro de mim uma louca certeza de que minha mãe vai chegar de viagem a qualquer momento, mas infelizmente não vai ser assim. Se alguém também vive um luto, lembre-se que, mesmo nas tristezas e nos sofrimentos, não somos desamparados nem esquecidos por Deus. Por mais que algumas vezes a gente pense que Ele nos abandonou.
Feliz Natal!
Muita paz e luz pra todos nós.
Mart'nália - Benditas
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Zélia Duncan
sábado, 22 de dezembro de 2012
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Último post!?
Uma lista grande de coisas vêm me acontecendo desde o fim de Setembro. Tudo de ruim resolveu passar por mim e tirar um sarro do meu juízo. Perdas, derrotas, fracassos, tristezas, mágoas... que algumas vezes no meu dia não sei em qual delas pensar primeiro. É claro que o dia começa pelas ausências e pelo coração disparado, pensando em mais um dia vazio pela frente. O restante vem chegando conforme as horas passam e as atividades rotineiras vão nos lembrando de tudo o que nos falta.
Minha vida ainda não parou. Continua a saculejar pra lá e pra cá, revirando tudo e por vezes nem me dando tempo de respirar. Dizer sim no automático e depois me questionar, esquecer quase tudo que me dizem ou que deveria lembrar, lembrar da morte da minha mãe e surtar, dormir mal, passar um dia não tão melhor assim, não ter vontade de fazer nada, tomar remédios para tentar ficar sóbrio diante da vida e ainda me olhar no espelho e não me reconhecer.
Acho que a lição da temporada 2012 do seriado da minha vida tem a ver com sanidade mental, ou maturidade sentimental. Paciência, amor, saudade, raiva e tristeza nunca foram tão bem compreendidos e bem sentidos por mim (nos seus significados mais plenos). Hoje tento domá-los e dosá-los, mas na melhor das hipóteses tenho apenas conseguido perceber quão grandes e intensos são cada um desses sentimentos. Quão pequeno sou diante da destruição que esse furacão de sensações causa em minha vida.
O exercício diário de paciência tem sido uma lição na qual ando errando muito. A irritação exagerada por coisas tão medíocres que antes passariam por mim como pequenos divertimentos diários, mas que hoje parecem ofensas cruéis. Ou mesmo a vivência do amor em suas mais variadas vertentes, que me alimenta e me fortalece a cada novo dia. Amor companheiro, amor amigo, amor familiar e o amor paternal. Como é perturbador viver tantas coisas que se tornaram incontroláveis, enquanto também se vive outras tantas surpreendentes.
Por causa dessa inconstância, temo enlouquecer antes que termine cada novo dia. Em casa a ausência materna é tão presente que fere e acaba com tudo. A cachorra que passou dias sem comer, a TV que ninguém assiste, o marido que se escorou pelas paredes para não cair, a planta que morreu, o rádio que se calou, a mãe que quer morrer pra acompanhar a filha, a neta baleada, a sogra que não para de chorar e um filho quase a perder a fé em Deus.
Não sou nenhum doente terminal morrendo e sentindo dores que não passam mesmo medicadas. Não perdi tudo e todos de maneira violenta. Não estou a ver meus filhos morrerem de fome. Posso listar algumas dezenas de situações piores do que a minha, mas ninguém poderá dizer que não existe tanto sofrimento no que venho passando. Como já ouvi tantas vezes: Cada um sabe onde o calo aperta. E o meu calo aperta no peito, bem forte e pesado.
Falei tanto sobre a saudade aqui no blog, mas foi presunção minha pensar que a conhecia, ou que a havia sentido. Saudade não é falta, não é ausência, não é tristeza e não são lembranças. Saudade é tudo isso, duas vezes maior e pior. É uma dor fela da puta que não pára, aumenta, dilacera, queima, lateja e apenas nos adormece por alguns minutos em nosso dia para voltar maior no dia seguinte. Saudade é a dor da certeza de que você jamais terá aquilo de volta.
Há dias venho remoendo o fim do blog. Como um ruminante, guardo a ideia num canto qualquer e sempre que posso trago à tona para mastigar e tentar digerir. Por quê faria isso? Falta de leitores, falta de criatividade, falta de inspiração, falta de ânimo, falta de tesão... Não faltam motivos para encerrar meus devanios virtuais. Minha cabeça nunca esteve tão sobrecarregada como agora e minha alma nunca se sentiu tão pesada.
Esse texto, por exemplo, é, disparado, um dos piores postados aqui. Ele não segue uma linha de raciocínio e apenas traz um monte de informações jogadas ao acaso num desabafo de ideias e frustações. Os tempos de inspiração e textos "legíveis" se foram.
A impressão é de que o que ficou por aqui foi sofrimento, que traz impaciência, alimenta a raiva, motiva um choro, dói a cabeça, piora a gastrite e volta na saudade, que gera mais sofrimento, trazendo mais impaciência, alimentando outra vez a raiva, motivando novos choros, doendo a cabeça, atacando a gastrite e enlouquecendo enquanto se sente mais saudade, mais sofrimento, mais impaciência... mais solidão.
Zeca Baleiro e Margareth Menezes - Último post
Minha vida ainda não parou. Continua a saculejar pra lá e pra cá, revirando tudo e por vezes nem me dando tempo de respirar. Dizer sim no automático e depois me questionar, esquecer quase tudo que me dizem ou que deveria lembrar, lembrar da morte da minha mãe e surtar, dormir mal, passar um dia não tão melhor assim, não ter vontade de fazer nada, tomar remédios para tentar ficar sóbrio diante da vida e ainda me olhar no espelho e não me reconhecer.
Acho que a lição da temporada 2012 do seriado da minha vida tem a ver com sanidade mental, ou maturidade sentimental. Paciência, amor, saudade, raiva e tristeza nunca foram tão bem compreendidos e bem sentidos por mim (nos seus significados mais plenos). Hoje tento domá-los e dosá-los, mas na melhor das hipóteses tenho apenas conseguido perceber quão grandes e intensos são cada um desses sentimentos. Quão pequeno sou diante da destruição que esse furacão de sensações causa em minha vida.
O exercício diário de paciência tem sido uma lição na qual ando errando muito. A irritação exagerada por coisas tão medíocres que antes passariam por mim como pequenos divertimentos diários, mas que hoje parecem ofensas cruéis. Ou mesmo a vivência do amor em suas mais variadas vertentes, que me alimenta e me fortalece a cada novo dia. Amor companheiro, amor amigo, amor familiar e o amor paternal. Como é perturbador viver tantas coisas que se tornaram incontroláveis, enquanto também se vive outras tantas surpreendentes.
Por causa dessa inconstância, temo enlouquecer antes que termine cada novo dia. Em casa a ausência materna é tão presente que fere e acaba com tudo. A cachorra que passou dias sem comer, a TV que ninguém assiste, o marido que se escorou pelas paredes para não cair, a planta que morreu, o rádio que se calou, a mãe que quer morrer pra acompanhar a filha, a neta baleada, a sogra que não para de chorar e um filho quase a perder a fé em Deus.
Não sou nenhum doente terminal morrendo e sentindo dores que não passam mesmo medicadas. Não perdi tudo e todos de maneira violenta. Não estou a ver meus filhos morrerem de fome. Posso listar algumas dezenas de situações piores do que a minha, mas ninguém poderá dizer que não existe tanto sofrimento no que venho passando. Como já ouvi tantas vezes: Cada um sabe onde o calo aperta. E o meu calo aperta no peito, bem forte e pesado.
Falei tanto sobre a saudade aqui no blog, mas foi presunção minha pensar que a conhecia, ou que a havia sentido. Saudade não é falta, não é ausência, não é tristeza e não são lembranças. Saudade é tudo isso, duas vezes maior e pior. É uma dor fela da puta que não pára, aumenta, dilacera, queima, lateja e apenas nos adormece por alguns minutos em nosso dia para voltar maior no dia seguinte. Saudade é a dor da certeza de que você jamais terá aquilo de volta.
Há dias venho remoendo o fim do blog. Como um ruminante, guardo a ideia num canto qualquer e sempre que posso trago à tona para mastigar e tentar digerir. Por quê faria isso? Falta de leitores, falta de criatividade, falta de inspiração, falta de ânimo, falta de tesão... Não faltam motivos para encerrar meus devanios virtuais. Minha cabeça nunca esteve tão sobrecarregada como agora e minha alma nunca se sentiu tão pesada.
Esse texto, por exemplo, é, disparado, um dos piores postados aqui. Ele não segue uma linha de raciocínio e apenas traz um monte de informações jogadas ao acaso num desabafo de ideias e frustações. Os tempos de inspiração e textos "legíveis" se foram.
A impressão é de que o que ficou por aqui foi sofrimento, que traz impaciência, alimenta a raiva, motiva um choro, dói a cabeça, piora a gastrite e volta na saudade, que gera mais sofrimento, trazendo mais impaciência, alimentando outra vez a raiva, motivando novos choros, doendo a cabeça, atacando a gastrite e enlouquecendo enquanto se sente mais saudade, mais sofrimento, mais impaciência... mais solidão.
Zeca Baleiro e Margareth Menezes - Último post
sábado, 17 de novembro de 2012
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Momento Divaldo Franco
Se alguém pretende magoá-lo, e você não aceita a ofensa, ele não o conseguirá, por mais o tente.
Se outrem enunciou cruel calúnia para desmoralizá-lo, e ele mente, como é óbvio, você prosseguirá como antes.
Se alguma pessoa de temperamento áspero não simpatiza com você, e a sua é uma atitude de compreensão, de forma alguma você será afetado pelas suas vibrações negativas.
Se um amigo de largo tempo desertou da sua companhia, acusando-o injustamente, e você se encontra com a consciência tranquila, não prosseguirá a sós.
Se você foi acusado por perversidade ou inveja de alguém, e se permanece consciente da sua honorabilidade, nada mudará em sua vida.
Se você se vê a braços com inimigos ferrenhos, mas não revida o mal que lhe desejam, conseguirá expressiva vitória na sua marcha ascensional.
Se apupado e desrespeitado, você percebe que o fazem por despeito e sentimentos inferiores, não se detendo na torpe situação, você é um vencedor.
Se algumas criaturas demonstram desagrado ante a sua presença, e você consegue desculpá-las, a sua é a postura adequada.
* * *
Nunca tome para você as agressões dos outros, mesmo quando citado nominalmente.
A grande maioria dos indivíduos vê o seu próximo mediante a projeção dos próprios conflitos, e nem sequer dão-se conta da insensatez que os domina.
É fácil identificar nos outros ou transferir as próprias torpezas e insânias, raramente os tesouros das virtudes que escasseiam.
Mantenha-se em paz, não se considerando tão importante, que seja sempre motivo da agressão e da maldade dos outros.
Sempre haverá opositores e vítimas na sociedade.
Que você seja a tranquilidade de consciência a serviço do Bem libertador.
Se você assim proceder, o mal dos outros nunca lhe fará mal, mas o seu bem a todos fará muito bem.
(do espírito Marco Prisco, psicografado por Divaldo Franco)
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Adeus - II
Meu corpo estava cansado ao extremo, emocional e psicologicamente pela perda de minha mãe e fisicamente pela noite em claro no aeroporto do Rio Grande do Norte e as pouco mais de duas horas de viagem. Um banho longo, um suco, uma fruta e estava "pronto" para seguir para o cemitério.
Não sei o que havia naquele dia. Se Sol, se chuva... de alguma forma cheguei lá e apenas recebi abraços e palavras de inúmeros amigos e familiares.Tantos rostos e vozes conhecidas e queridas apareceram naquele e nos dias seguintes. Por mais triste que fossem aqueles momentos, o alento daqueles que nos querem bem sempre será um conforto ao coração.
Amigos de longa data de minha mãe também vieram. Estiveram ali para se despedir. Não a vi, quis lembrar-me da última vez em que me despedi e viajei. Minha despedida foi 11 dias antes, mas dias depois do velório nada daquilo parecia ser verdade. Ainda tenho a certeza, mesmo hoje, que daqui dias ou horas ela voltará de alguma viagem.
Uma vizinha e amiga de minha mãe prestou ainda uma última homenagem. Durante o sepultamento puxou uma canção que ouvi algumas dezenas de vezes minha mãe cantarolar. Todos acompanharam, choraram e entenderam que aquilo que cantavam narrava a vida daquela de quem se despediam. Uma vida vivida sem vergonha de ser quem se era, de ser feliz...
Gonzaguinha - O que é, o que é
Eu fico
Com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita...
Viver!
E não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser
Um eterno aprendiz...
Ah meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser
Bem melhor e será
Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita
E é bonita...
E a vida!
E a vida o que é?
Diga lá, meu irmão
Ela é a batida
De um coração
Ela é uma doce ilusão
E a vida
Ela é maravilha
Ou é sofrimento?
Ela é alegria
Ou lamento?
O que é? O que é?
Meu irmão...
Há quem fale
Que a vida da gente
É um nada no mundo
É uma gota, é um tempo
Que nem dá um segundo...
Há quem fale
Que é um divino
Mistério profundo
É o sopro do criador
Numa atitude repleta de amor...
Você diz que é luta e prazer
Ele diz que a vida é viver
Ela diz que melhor é morrer
Pois amada não é
E o verbo é sofrer...
Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der, ou puder, ou quiser...
Sempre desejada
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte...
E a pergunta roda
E a cabeça agita
Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita...
Não sei o que havia naquele dia. Se Sol, se chuva... de alguma forma cheguei lá e apenas recebi abraços e palavras de inúmeros amigos e familiares.Tantos rostos e vozes conhecidas e queridas apareceram naquele e nos dias seguintes. Por mais triste que fossem aqueles momentos, o alento daqueles que nos querem bem sempre será um conforto ao coração.
Amigos de longa data de minha mãe também vieram. Estiveram ali para se despedir. Não a vi, quis lembrar-me da última vez em que me despedi e viajei. Minha despedida foi 11 dias antes, mas dias depois do velório nada daquilo parecia ser verdade. Ainda tenho a certeza, mesmo hoje, que daqui dias ou horas ela voltará de alguma viagem.
Uma vizinha e amiga de minha mãe prestou ainda uma última homenagem. Durante o sepultamento puxou uma canção que ouvi algumas dezenas de vezes minha mãe cantarolar. Todos acompanharam, choraram e entenderam que aquilo que cantavam narrava a vida daquela de quem se despediam. Uma vida vivida sem vergonha de ser quem se era, de ser feliz...
Gonzaguinha - O que é, o que é
Eu fico
Com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita...
Viver!
E não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser
Um eterno aprendiz...
Ah meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser
Bem melhor e será
Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita
E é bonita...
E a vida!
E a vida o que é?
Diga lá, meu irmão
Ela é a batida
De um coração
Ela é uma doce ilusão
E a vida
Ela é maravilha
Ou é sofrimento?
Ela é alegria
Ou lamento?
O que é? O que é?
Meu irmão...
Há quem fale
Que a vida da gente
É um nada no mundo
É uma gota, é um tempo
Que nem dá um segundo...
Há quem fale
Que é um divino
Mistério profundo
É o sopro do criador
Numa atitude repleta de amor...
Você diz que é luta e prazer
Ele diz que a vida é viver
Ela diz que melhor é morrer
Pois amada não é
E o verbo é sofrer...
Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der, ou puder, ou quiser...
Sempre desejada
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte...
E a pergunta roda
E a cabeça agita
Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita...
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
Adeus - I
Enquanto na TV homenagens eram prestadas a uma falecida apresentadora, cantora e atriz, eu já me encontrava triste sem saber ao menos o motivo. Coloquei minha mala sobre a cama e a fiz para voltar. Mesmo que ainda faltasse tanto tempo para retornar, quis (sem saber o motivo) deixar tudo pronto para minha volta.
Na rua, comprei a lembrança que faltava. Um quadro retratando a santa ceia, algo que minha mãe sonhara por tantos meses. Enfim, achei um que lhe agradaria. Peguei o celular para avisá-la, mas hesitei no último segundo. Que tal fazer uma surpresa? Desliguei e fui dar um passeio noturno à beira-mar, um último brinde e depois descansar. Ainda assim algo parecia estranho desde o sábado pela manhã.
O telefone toca, minha mãe!? Pelo adiantado da hora achei estranho, mas o que poderia ter acontecido? Com certeza ela me perguntaria sobre algo relativo à viagem e se alguém iria me buscar do aeroporto. Atendi brincando e perguntando o quê ela queria. Do outro lado meu irmão aos prantos me pergunta onde estou, me pede pra ser forte e avisa que nossa mãe havia desencarnado...
Não me lembro bem o que aconteceu depois disso. Com muita dificuldade e passado algum tempo cheguei ao hotel aos prantos, sentei na cama e rezei pela alma da minha mãe. Minutos depois enviei duas ou três mensagens e recebi dezenas de telefonemas e mensagens.
Outra vez minha memória falha e agora já estou a caminho do aeroporto. Perto da meia noite alguém me liga, mais choro, mais inércia, mais nada. Uma noite sentado, sob um ar condicionado me congelando e eu tremendo de medo. Não queria voltar, mas também sabia que fazia parte da vida enterrar meus mortos.
Já de volta à Brasília, meus primos me esperavam. Choramos, nos abraçamos e eu ainda parecia estar dormindo. Esperava acordar ou ver ao chegar sorrindo e me dizer que tudo não passou de uma brincadeira. Até agora estou esperando.
Em casa outra sessão de choros a cada novo abraço e desejo de me reconfortar. Me vi tentando reconfortar tantos, a começar pelos meus avós e pelo meu irmão deitado em minha cama, dopado pelos remédios de tarja preta e como se quisesse meu perdão, jurou ter feito de tudo para salvá-la.
A casa revirada e suja descrevia toda a tragédia ocorrida ali horas atrás. Talvez depois de tudo isso, meu pai tenha descreditado ainda mais que Deus possa existir. Não que ele precisasse de novos argumentos, isso ele têm de sobra, mas talvez agora ele tivesse motivos reais para descrer. Ao me ver, veio emocionado me abraçar. Não sei ao certo se foi eu quem o acalmou, ou se ele me deixou nervoso.
Não houveram despedidas, tudo repentino como ela queria que fosse sua partida. Mas tenho a certeza que nem mesmo ela queria que fosse tão doloroso para todos nós. Agora seríamos apenas nós dois (eu e meu pai) e toda falta que minha mãe deixou. Terceiro elemento que se faz muito mais presente e preenchedor de espaços dentro dos nossos dias daqui por diante.
Alcione e Maria Bethânia - Sem Mais Adeus
Na rua, comprei a lembrança que faltava. Um quadro retratando a santa ceia, algo que minha mãe sonhara por tantos meses. Enfim, achei um que lhe agradaria. Peguei o celular para avisá-la, mas hesitei no último segundo. Que tal fazer uma surpresa? Desliguei e fui dar um passeio noturno à beira-mar, um último brinde e depois descansar. Ainda assim algo parecia estranho desde o sábado pela manhã.
O telefone toca, minha mãe!? Pelo adiantado da hora achei estranho, mas o que poderia ter acontecido? Com certeza ela me perguntaria sobre algo relativo à viagem e se alguém iria me buscar do aeroporto. Atendi brincando e perguntando o quê ela queria. Do outro lado meu irmão aos prantos me pergunta onde estou, me pede pra ser forte e avisa que nossa mãe havia desencarnado...
Não me lembro bem o que aconteceu depois disso. Com muita dificuldade e passado algum tempo cheguei ao hotel aos prantos, sentei na cama e rezei pela alma da minha mãe. Minutos depois enviei duas ou três mensagens e recebi dezenas de telefonemas e mensagens.
Outra vez minha memória falha e agora já estou a caminho do aeroporto. Perto da meia noite alguém me liga, mais choro, mais inércia, mais nada. Uma noite sentado, sob um ar condicionado me congelando e eu tremendo de medo. Não queria voltar, mas também sabia que fazia parte da vida enterrar meus mortos.
Já de volta à Brasília, meus primos me esperavam. Choramos, nos abraçamos e eu ainda parecia estar dormindo. Esperava acordar ou ver ao chegar sorrindo e me dizer que tudo não passou de uma brincadeira. Até agora estou esperando.
Em casa outra sessão de choros a cada novo abraço e desejo de me reconfortar. Me vi tentando reconfortar tantos, a começar pelos meus avós e pelo meu irmão deitado em minha cama, dopado pelos remédios de tarja preta e como se quisesse meu perdão, jurou ter feito de tudo para salvá-la.
A casa revirada e suja descrevia toda a tragédia ocorrida ali horas atrás. Talvez depois de tudo isso, meu pai tenha descreditado ainda mais que Deus possa existir. Não que ele precisasse de novos argumentos, isso ele têm de sobra, mas talvez agora ele tivesse motivos reais para descrer. Ao me ver, veio emocionado me abraçar. Não sei ao certo se foi eu quem o acalmou, ou se ele me deixou nervoso.
Não houveram despedidas, tudo repentino como ela queria que fosse sua partida. Mas tenho a certeza que nem mesmo ela queria que fosse tão doloroso para todos nós. Agora seríamos apenas nós dois (eu e meu pai) e toda falta que minha mãe deixou. Terceiro elemento que se faz muito mais presente e preenchedor de espaços dentro dos nossos dias daqui por diante.
Alcione e Maria Bethânia - Sem Mais Adeus
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