Que o papel aceita de tudo, isso não é novidade. Aliás, escrito o mundo se torna tão bonito e perfeitinho que nos orgulhamos de nossa humanidade. Pode-se criar leis que ofereçam direitos e deveres sem se esquecer de ninguém. Nas linhas é possível erguer um país justo e igualitário e corrigir os desenganos que o tempo cometeu.
Pena que quando saímos do papel pouco se concretiza. Em especial a assistência social, tão bonita em sua normatização. Tão garantidora de direitos que pode comover o mais desavisado que lê-la, acreditando que o mundo a concretiza. A verdade por trás de tudo isso é que os governantes entendem o serviço social como uma mera forma de assistencialismo que devolve aos seus governos votos importantes a cada 4 anos.
Após quase um ano em um abrigo público constato o completo abandono do Estado e o reflexo sentido por mim, a frágil ponta da linha que liga excluídos adolescentes de rua ao governo. Uso excessivo de drogas, vandalismo, tráfico, roubos, violência gratuita, algumas vezes a tentativa de coagir a nós que tentamos garantir-lhes os mínimos direitos e tendo como único apoio do sistema a "metodologia" da Polícia Militar (inimiga número 1 dos jovens em situação de rua).
Meu local de trabalho (nas piores condições estruturais possíveis) se localiza, ironicamente, próximo a um belíssimo canteiro de obras. Um estádio que receberá nações e será palco de possíveis alegrias a cada país representado. Até por quê, no "país do futebol" é imprescindível garantir uma bela Copa do Mundo e mostrar a capacidade da nossa nação em receber as Olimpíadas em 2016.
Afinal, o que garante votos? Abrigos que cuidam de idosos, moradores de rua, mulheres com problemas mentais e crianças? Ou a distribuição de pão, leite e auxílios que incentivam famílias a terem mais e mais filhos sem se importar de maneira eficaz com o planejamento familiar e a melhora social? Quase ia me esquecendo, as famílias que recebem os auxílios são, em parte, as mesmas que por vários motivos vêem seus filhos se envolverem no crime, traficarem, morarem na rua, se drogarem e chegarem até abrigos iguais ao que trabalho.
Como nos alertou um colega de trabalho, ex-morador de rua, "menino de rua é igual onça, todo mundo defende, mas ninguém chega perto". No mais alto escalão da secretaria, promessas eternas de que tudo há de melhorar enquanto adolescentes são presos, mortos, traficam, são estuprados, viciados, agredidos, rejeitados, prostituídos e os servidores públicos que os assistem adoecem, são agredidos, ameaçados e com pouco mais de dois meses perdem todos os sonhos de que era possível mudar muitas vidas.
O sonho não é de todo em vão. Algumas poucas almas podem ser salvas, não por ajuda de um governo, mas por desejo de mudança do jovem. Como ovos de tartarugas enterrados na areia da praia, de cada mil, um consegue superar a natureza e sobreviver.
Natiruts e GOG - Quem Planta Preconceito
quinta-feira, 21 de junho de 2012
quarta-feira, 13 de junho de 2012
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Inferno Astral
Tantas coisas aconteceram nos últimos dias que por alguns minutos cheguei a acreditar que haveria mesmo o tal do inferno astral. Período de um mês que antecede o aniversário, correspondente na astrologia ao signo anterior de cada um, em que estamos propícios a passar por problemas e acontecimentos ruins.
Existe um certo exagero em pensar que somente um mês antes do nosso aniversário coisas ruins nos ocorram. Algumas fatalidades já estão fadadas a ocorrerem tendo cada um de nós aniversariado, ou não. Ninguém morre, adoece, passa por dificuldades financeiras, termina relacionamentos ou perde o emprego apenas porque daqui um mês ficará mais velho.
Tudo na natureza passa por ciclos. Momentos em nossas vidas onde vivemos um processo de mudança de hábitos para uma melhora. Fatos que nos trazem a maturidade e o crescimento pessoal e espiritual. Mudar, crescer e melhorar, em hipótese alguma será um inferno ou tormento.
Verdade seja dita, quase que todas as vezes, nossas mudanças ocorrem depois de muita aflição. Não por castigo divino, mas porque não somos capazes de mudar de outra forma. Somente as perdas e as atribulações nos chamam para a realidade e a análise de situações que precisam ser mudadas.
Em uma época tão plugada e tecnológica vejamos esses momentos como aqueles em que nosso software pede uma atualização. Só que essa "atualização" não rola apenas em períodos pré-estabelecidos (o que seria, de certa forma, uma boa saber quando passaríamos dificuldades e nos prepararmos).
Quando estamos bem acomodados e despreocupados demais é que os turbilhões surgem. Nada permanece o mesmo, por isso precisamos mudar de tempos em tempos. Como postei anteriormente, vida é feito água. E água quando é da boa um dia já foi, sólida ou gasosa.
Caetano Veloso - Como 2 e 2
Existe um certo exagero em pensar que somente um mês antes do nosso aniversário coisas ruins nos ocorram. Algumas fatalidades já estão fadadas a ocorrerem tendo cada um de nós aniversariado, ou não. Ninguém morre, adoece, passa por dificuldades financeiras, termina relacionamentos ou perde o emprego apenas porque daqui um mês ficará mais velho.
Tudo na natureza passa por ciclos. Momentos em nossas vidas onde vivemos um processo de mudança de hábitos para uma melhora. Fatos que nos trazem a maturidade e o crescimento pessoal e espiritual. Mudar, crescer e melhorar, em hipótese alguma será um inferno ou tormento.
Verdade seja dita, quase que todas as vezes, nossas mudanças ocorrem depois de muita aflição. Não por castigo divino, mas porque não somos capazes de mudar de outra forma. Somente as perdas e as atribulações nos chamam para a realidade e a análise de situações que precisam ser mudadas.
Em uma época tão plugada e tecnológica vejamos esses momentos como aqueles em que nosso software pede uma atualização. Só que essa "atualização" não rola apenas em períodos pré-estabelecidos (o que seria, de certa forma, uma boa saber quando passaríamos dificuldades e nos prepararmos).
Quando estamos bem acomodados e despreocupados demais é que os turbilhões surgem. Nada permanece o mesmo, por isso precisamos mudar de tempos em tempos. Como postei anteriormente, vida é feito água. E água quando é da boa um dia já foi, sólida ou gasosa.
Caetano Veloso - Como 2 e 2
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Salmos
Salmo 11
1 No Senhor confio. Como, pois, me dizeis: Foge para o monte, como um pássaro?
2 Pois eis que os ímpios armam o arco, põem a sua flecha na corda, para atirarem, às ocultas, aos retos de coração.
3 Quando os fundamentos são destruídos, que pode fazer o justo?
4 O Senhor está no seu santo templo, o trono do Senhor está nos céus; os seus olhos contemplam, as suas pálpebras provam os filhos dos homens.
5 O Senhor prova o justo e o ímpio; a sua alma odeia ao que ama a violência.
6 Sobre os ímpios fará chover brasas de fogo e enxofre; um vento abrasador será a porção do seu copo.
7 Porque o Senhor é justo; ele ama a justiça; os retos, pois, verão o seu rosto.
Cid Moreira - Salmo 11
1 No Senhor confio. Como, pois, me dizeis: Foge para o monte, como um pássaro?
2 Pois eis que os ímpios armam o arco, põem a sua flecha na corda, para atirarem, às ocultas, aos retos de coração.
3 Quando os fundamentos são destruídos, que pode fazer o justo?
4 O Senhor está no seu santo templo, o trono do Senhor está nos céus; os seus olhos contemplam, as suas pálpebras provam os filhos dos homens.
5 O Senhor prova o justo e o ímpio; a sua alma odeia ao que ama a violência.
6 Sobre os ímpios fará chover brasas de fogo e enxofre; um vento abrasador será a porção do seu copo.
7 Porque o Senhor é justo; ele ama a justiça; os retos, pois, verão o seu rosto.
Cid Moreira - Salmo 11
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Momento Chico Xavier
Paciência e nós
Quando as dificuldades atingem o apogeu, induzindo os companheiros mais valorosos a desertarem da luta pelo estabelecimento das boas obras, e prossegues sob o peso da responsabilidade que elas acarretam, na convicção de que não nos cabe descrer da vitória final...
Quando os problemas se multiplicam na estrada, pela invigilância dos próprios amigos, e te manténs, sem revolta, nas realizações edificantes a que te consagras...
Quando a injúria te espanca o nome, procurando desmantelar-te o trabalho, e continuas fiel às obrigações que abraçaste, sem atrasar o serviço com justificações ociosas...
Quando tentações e perturbações te ameaçam as horas, tumultuando-te os passos, e caminhas à frente, sem reclamações e sem queixas...
Quando te é lícito largar aos ombros de outrem a carga de atribuições sacrificiais que te assinala a existência, e não te afastas do serviço a fazer, entendendo que nenhum esforço é demais em favor do próximo...
Quando podes censurar e não censuras, exigir e não exiges...
Então, terás levantado a fortaleza da paciência no reino da própria alma.
Nem sempre passividade significa resignação construtiva.
Raramente pode alguém demonstrar conformidade, quando se encontre sob os constrangimentos da provação.
Paciência, em verdade, é perseverar na edifi-cação do bem, a despeito das arremetidas do mal, e prosseguir corajosamente cooperando com ela e junto dela, quando nos seja mais fácil desistir.
(do espírito Emmanuel, psicografado por Chico Xavier)
Lenine - Paciência
Quando as dificuldades atingem o apogeu, induzindo os companheiros mais valorosos a desertarem da luta pelo estabelecimento das boas obras, e prossegues sob o peso da responsabilidade que elas acarretam, na convicção de que não nos cabe descrer da vitória final...
Quando os problemas se multiplicam na estrada, pela invigilância dos próprios amigos, e te manténs, sem revolta, nas realizações edificantes a que te consagras...
Quando a injúria te espanca o nome, procurando desmantelar-te o trabalho, e continuas fiel às obrigações que abraçaste, sem atrasar o serviço com justificações ociosas...
Quando tentações e perturbações te ameaçam as horas, tumultuando-te os passos, e caminhas à frente, sem reclamações e sem queixas...
Quando te é lícito largar aos ombros de outrem a carga de atribuições sacrificiais que te assinala a existência, e não te afastas do serviço a fazer, entendendo que nenhum esforço é demais em favor do próximo...
Quando podes censurar e não censuras, exigir e não exiges...
Então, terás levantado a fortaleza da paciência no reino da própria alma.
Nem sempre passividade significa resignação construtiva.
Raramente pode alguém demonstrar conformidade, quando se encontre sob os constrangimentos da provação.
Paciência, em verdade, é perseverar na edifi-cação do bem, a despeito das arremetidas do mal, e prosseguir corajosamente cooperando com ela e junto dela, quando nos seja mais fácil desistir.
(do espírito Emmanuel, psicografado por Chico Xavier)
Lenine - Paciência
segunda-feira, 21 de maio de 2012
A inocência é a nova vítima da violência
Duas crianças no quintal resolvem brincar que são apresentadores de um telejornal. Ajeitam a mesa e se sentam cobrando "postura" uma da outra. Ambas desejam boa tarde aos seus telespectadores imaginários e começam a improvisar/noticiar os fatos do dia.
"Um homem atropela e mata uma mulher com uma criança nos braços. Outro homem assalta uma loja. Uma mulher mata uma pessoa...". Tragédia após tragédia, as notícias são dadas naturalmente ao "público".
Nada de boas notícias na "pauta" dos pequenos âncoras? A fantasia resolve então entrar na brincadeira e um lobisomem surge, após atacar e matar algumas pessoas em uma fazenda. Quebrando o clima de tragédia e sangue, surge uma notícia de forte chuva que causará alagamentos em várias partes da cidade.
Alguns erros são cometidos pelas crianças e logo elas recomeçam a apresentação, detalhando e "melhorando" cada vez mais as tragédias anunciadas anteriormente. O telejornal é interrompido para que eles possam ir ao colégio.
Enquanto isso, na tv, as notícias reais são apresentadas à população. Assaltos, crimes, denúncias de abusos de crianças, problemas nos hospitais, muito choro e desespero por parte de alguns entrevistados. Apenas a previsão do tempo pareceu ser melhor que a noticiada pelas crianças.
E agora, com qual dos "telejornais" eu ficarei? Só nos restaram as péssimas notícias? Por quê as crianças noticiaram tantas tragédias e coisas ruins? O que nossas crianças esperam do futuro? Ainda haverá futuro para a inocência?
Casuarina e Roberto Silva - Jornal da Morte (uma edição extra)
"Um homem atropela e mata uma mulher com uma criança nos braços. Outro homem assalta uma loja. Uma mulher mata uma pessoa...". Tragédia após tragédia, as notícias são dadas naturalmente ao "público".
Nada de boas notícias na "pauta" dos pequenos âncoras? A fantasia resolve então entrar na brincadeira e um lobisomem surge, após atacar e matar algumas pessoas em uma fazenda. Quebrando o clima de tragédia e sangue, surge uma notícia de forte chuva que causará alagamentos em várias partes da cidade.
Alguns erros são cometidos pelas crianças e logo elas recomeçam a apresentação, detalhando e "melhorando" cada vez mais as tragédias anunciadas anteriormente. O telejornal é interrompido para que eles possam ir ao colégio.
Enquanto isso, na tv, as notícias reais são apresentadas à população. Assaltos, crimes, denúncias de abusos de crianças, problemas nos hospitais, muito choro e desespero por parte de alguns entrevistados. Apenas a previsão do tempo pareceu ser melhor que a noticiada pelas crianças.
E agora, com qual dos "telejornais" eu ficarei? Só nos restaram as péssimas notícias? Por quê as crianças noticiaram tantas tragédias e coisas ruins? O que nossas crianças esperam do futuro? Ainda haverá futuro para a inocência?
Casuarina e Roberto Silva - Jornal da Morte (uma edição extra)
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Já comprou o presente da sua mãe?
Domingo comemora-se o Dia das Mães. Data em que normalmente a família se reúne para um almoço de confraternização e distribuição de presentes. Afinal, existe data mais oportuna para presentear a quem se ama?
O Boticário - Dia das Mães
A data é, como todas as outras, mais um período de promoções e altas vendas para o comércio. Por quê precisamos, para sermos bons filhos, presentear nossas mães? Porque família feliz é aquela em que a mãe recebe lindos presentes de seus filhos!
Ponto Frio - Dia das Mães
Crianças correndo pela casa e entregando o presente para a mãe, sorridente e satisfeita. Ou até mesmo a mãe que pede ao filho que não a presenteie, mas desobediente ele vai até a loja e aproveita a promoção para fazer sua mãe feliz. Será disso que nossas mães precisam?
Ricardo Eletro - Dia das Mães
Claro que hoje essa indução ao consumo se dá de maneira mais sutil. Deseja-se um bom dia às mamães e depois mostra-se o nome da empresa que está sendo tão "carinhosa". Coincidência ou não, aquela marca vem como lembrança ao filho que quer ser tão bom quanto o do comercial e fazer o dia de sua mãe verdadeiramente especial.
Casas Bahia - Dia das Mães
Coca-Cola - Dia das Mães
O Boticário - Dia das Mães
A data é, como todas as outras, mais um período de promoções e altas vendas para o comércio. Por quê precisamos, para sermos bons filhos, presentear nossas mães? Porque família feliz é aquela em que a mãe recebe lindos presentes de seus filhos!
Ponto Frio - Dia das Mães
Crianças correndo pela casa e entregando o presente para a mãe, sorridente e satisfeita. Ou até mesmo a mãe que pede ao filho que não a presenteie, mas desobediente ele vai até a loja e aproveita a promoção para fazer sua mãe feliz. Será disso que nossas mães precisam?
Ricardo Eletro - Dia das Mães
Claro que hoje essa indução ao consumo se dá de maneira mais sutil. Deseja-se um bom dia às mamães e depois mostra-se o nome da empresa que está sendo tão "carinhosa". Coincidência ou não, aquela marca vem como lembrança ao filho que quer ser tão bom quanto o do comercial e fazer o dia de sua mãe verdadeiramente especial.
Casas Bahia - Dia das Mães
Coca-Cola - Dia das Mães
terça-feira, 8 de maio de 2012
sexta-feira, 27 de abril de 2012
terça-feira, 17 de abril de 2012
Momento Fernando Pessoa
O vídeo abaixo é um trecho da novela O Clone, exibida pela rede Globo. O personagem, vivido pelo ator Osmar Prado, era um alcóolatra e durante uma discussão com o patrão, Reginaldo Faria, recita um poema de Fernando Pessoa.
Osmar Prado - Poema em Linha Reta (Fernando Pessoa)
Osmar Prado - Poema em Linha Reta (Fernando Pessoa)
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Mea culpa
O que alimenta tanto o ódio e a vingança em cada um de nós? Por que acreditar que o mal ao outro aliviará o orgulho ferido e o sentimento ruim alimentado dentro de nós? Canceriano, as lembranças são personagens principais em minha vida. Coincidência ou não, vivo a remoer mágoas e suspirar nostálgico.
De tudo isso nada me acrescentou. Em especial, no caso do auto-envenenamento de mágoas. Coração acelerado, imunidade baixa, enxaqueca, falta de apetite e dores estomacais fracas, mas incômodas. Resultado? Um adoecimento leve e a certeza de que me fiz muito mal com tudo o que aconteceu. O mal apenas se alimenta e se torna um tumor maligno que me mata aos poucos.
E se eu tivesse coragem o suficiente para me levantar, ir até quem me magoou (e também magoei) e pedir perdão? Exatamente, me falta coragem. O nobre e valoroso sentimento só nos explode no peito, muitas vezes, quando é para ofendermos alguém. Só somos corajosos para xingarmos em voz alta, humilharmos, ofendermos, agredirmos e rirmos.
Covarde, seguimos nos dando desculpas quaisquer para não fazermos o correto. Mesmo reconhecendo o que fazer, ainda não sou capaz de fazê-lo. Escrever tudo isso talvez não baste para me mobilizar a agir a favor do bem. Um bem que é muito mais para mim do que para outra pessoa.
Tendo assim um motivo mais do que suficiente para me redimir, mas não consigo, não me permito. Provavelmente seja, assim como é pra muitos, errado eu me mobilizar quando fui eu o ofendido. E ao me repetir isso a palavra orgulho se torna clara e ganha significado pleno. Percebemos o erro, reconhecemos, confirmamos a necessidade de fazer algo, mas negamos por vaidade.
Percebo então quanto sou vil, fútil e vulgar. Diferente da imagem de cara bom e correto, que meu egocentrismo sussurrou por tanto tempo ao pé do meu ouvido. Sussurrado, para que ninguém ouça e possa me alertar sobre a realidade. Tentando me fazer acreditar que eu seria um ser humano especial e iluminado.
Deixo aqui o relato de um homem fracassado e o pedido para que ao menos um leitor faça diferente, faça melhor, faça o certo. Mas acreditem, sigo tentando (ainda que timidamente) na esperança de que um dia possa fazer tudo isso que é o certo. O primeiro passo foi dado, reconhecer o quanto falho e errado posso ser.
Caetano Veloso e Jorge Mautner - Eu não peço desculpa
De tudo isso nada me acrescentou. Em especial, no caso do auto-envenenamento de mágoas. Coração acelerado, imunidade baixa, enxaqueca, falta de apetite e dores estomacais fracas, mas incômodas. Resultado? Um adoecimento leve e a certeza de que me fiz muito mal com tudo o que aconteceu. O mal apenas se alimenta e se torna um tumor maligno que me mata aos poucos.
E se eu tivesse coragem o suficiente para me levantar, ir até quem me magoou (e também magoei) e pedir perdão? Exatamente, me falta coragem. O nobre e valoroso sentimento só nos explode no peito, muitas vezes, quando é para ofendermos alguém. Só somos corajosos para xingarmos em voz alta, humilharmos, ofendermos, agredirmos e rirmos.
Covarde, seguimos nos dando desculpas quaisquer para não fazermos o correto. Mesmo reconhecendo o que fazer, ainda não sou capaz de fazê-lo. Escrever tudo isso talvez não baste para me mobilizar a agir a favor do bem. Um bem que é muito mais para mim do que para outra pessoa.
Tendo assim um motivo mais do que suficiente para me redimir, mas não consigo, não me permito. Provavelmente seja, assim como é pra muitos, errado eu me mobilizar quando fui eu o ofendido. E ao me repetir isso a palavra orgulho se torna clara e ganha significado pleno. Percebemos o erro, reconhecemos, confirmamos a necessidade de fazer algo, mas negamos por vaidade.
Percebo então quanto sou vil, fútil e vulgar. Diferente da imagem de cara bom e correto, que meu egocentrismo sussurrou por tanto tempo ao pé do meu ouvido. Sussurrado, para que ninguém ouça e possa me alertar sobre a realidade. Tentando me fazer acreditar que eu seria um ser humano especial e iluminado.
Deixo aqui o relato de um homem fracassado e o pedido para que ao menos um leitor faça diferente, faça melhor, faça o certo. Mas acreditem, sigo tentando (ainda que timidamente) na esperança de que um dia possa fazer tudo isso que é o certo. O primeiro passo foi dado, reconhecer o quanto falho e errado posso ser.
Caetano Veloso e Jorge Mautner - Eu não peço desculpa
sexta-feira, 30 de março de 2012
terça-feira, 27 de março de 2012
Miseravelmente miseráveis
Quanto custa a bolsa de grife? O tênis de marca? O casaco importado? A bicicleta do vizinho? O carro vermelho italiano? O colar de diamantes? Os anéis de ouro? A calça da moda? O tablet de última geração? O celular sem teclado? A mansão na beira da praia?
Quantos dígitos são necessários para ter tudo isso?
Objeto de desejo de milhões, mundo a fora. Cada um dos poucos ítens citados acima trazem muito mais do que facilidade e utilidade. Eles carregam outros valores (além do financeiro) que fazem deles tão cobiçados, caros e especiais.
Quanto custa um copo d'água? Um prato de comida? Um par de chinelos? Uma camisa? Uma bermuda? Uma coberta? Uma cama? Uma casa de dois ou três cômodos? Uma escola? Um caderno? Um lápis? Um óculos? Uma cadeira de rodas? Um remédio?
O trivial, o ordinário, o comum, o rotineiro, precisa de quantas moedas para ser obtido?
A maioria, ou talvez todos nós, não sabemos o valor exato dessa segunda lista. Da primeira é bem provável que, se não soubermos tudo, tenhamos cerca de 95% dos preços gravados. Até mesmo acompanhando suas variações, por meses, na expectativa de que um dia caibam em nossos orçamentos.
Valores a parte, qual das duas listas é a mais importante? Qual é o fundamental e merece, de fato, ter um valor exorbitante agregado ao seu preço?
Para cada novo tablet vendido, milhões de crianças deixam de ir à escola todos os dias. Para cada bolsa cravejada de brilhantes, bordada com fios de ouro e recoberta com a seda da mais alta qualidade, centenas de milhares de famílias estão debaixos de viadutos, árvores, pontes ou jogadas em calçadas. Para cada prato refinado e exótico, temperado com ervas finas cultivadas em remotas regiões do planeta e preparado por um renomado chef, milhões morrem de fome e sede.
E daí? Todos sabemos disso, mas não nos damos conta quando estamos na fila com cada um dos ítens citados nas mãos, depois de meses, ou semanas, de economia.
O que nos difere dos miseráveis? Ambos queremos objetos valorosos, mas que não estão ao nosso alcance. Nós por luxo, eles por necessidade, desespero talvez. Somos igualmente miseráveis, mas em graus e escalas diferentes. Os mais debochados me dirão que a nossa miséria é evoluída, mas infelizmente ela é uma miséria mais miserável ainda. É quando o básico vira fútil e o dispensável se torna essencial.
Enquanto isso, vivemos como se nada acontecesse do lado de fora dos muros com cerca eletrificada e câmeras de vigilância. Mesmo vendo e sentindo a violência bater à nossa porta todos os dias.
Na verdade queremos ser as madames chiques do reality show da tv, que acham tudo uma loucura e brindam com suas taças de cristal às nove da manhã. Queremos ser os filhos do bilionário que têm um carro que ninguém mais no país tem e que vão a uma delegacia com cinco seguranças (dentro de outro carro importado) explicar que não tiveram culpa em atropelar e matar um ciclista.
O que nos sobra, nos faz falta, porque é essa "aparente sobra" que nos fará chegar lá em cima. Já para quem quer apenas sobreviver, o que nos sobra lhes faz tanta falta que muitas vezes eles morrem esperando que alguma ajuda venha.
Agora pergunto a todos, me incluíndo aí também: - Você mataria alguém para ter algum dos primeiros objetos citados lá em cima? Não!, todos responderemos (espero). Mas o quê temos feito para salvar essas vidas que se perdem a espera daquilo que nos sobra?
... , responderemos.
Engenheiros do Hawaii - Terra de Gigantes/Números
Quantos dígitos são necessários para ter tudo isso?
Objeto de desejo de milhões, mundo a fora. Cada um dos poucos ítens citados acima trazem muito mais do que facilidade e utilidade. Eles carregam outros valores (além do financeiro) que fazem deles tão cobiçados, caros e especiais.
Quanto custa um copo d'água? Um prato de comida? Um par de chinelos? Uma camisa? Uma bermuda? Uma coberta? Uma cama? Uma casa de dois ou três cômodos? Uma escola? Um caderno? Um lápis? Um óculos? Uma cadeira de rodas? Um remédio?
O trivial, o ordinário, o comum, o rotineiro, precisa de quantas moedas para ser obtido?
A maioria, ou talvez todos nós, não sabemos o valor exato dessa segunda lista. Da primeira é bem provável que, se não soubermos tudo, tenhamos cerca de 95% dos preços gravados. Até mesmo acompanhando suas variações, por meses, na expectativa de que um dia caibam em nossos orçamentos.
Valores a parte, qual das duas listas é a mais importante? Qual é o fundamental e merece, de fato, ter um valor exorbitante agregado ao seu preço?
Para cada novo tablet vendido, milhões de crianças deixam de ir à escola todos os dias. Para cada bolsa cravejada de brilhantes, bordada com fios de ouro e recoberta com a seda da mais alta qualidade, centenas de milhares de famílias estão debaixos de viadutos, árvores, pontes ou jogadas em calçadas. Para cada prato refinado e exótico, temperado com ervas finas cultivadas em remotas regiões do planeta e preparado por um renomado chef, milhões morrem de fome e sede.
E daí? Todos sabemos disso, mas não nos damos conta quando estamos na fila com cada um dos ítens citados nas mãos, depois de meses, ou semanas, de economia.
O que nos difere dos miseráveis? Ambos queremos objetos valorosos, mas que não estão ao nosso alcance. Nós por luxo, eles por necessidade, desespero talvez. Somos igualmente miseráveis, mas em graus e escalas diferentes. Os mais debochados me dirão que a nossa miséria é evoluída, mas infelizmente ela é uma miséria mais miserável ainda. É quando o básico vira fútil e o dispensável se torna essencial.
Enquanto isso, vivemos como se nada acontecesse do lado de fora dos muros com cerca eletrificada e câmeras de vigilância. Mesmo vendo e sentindo a violência bater à nossa porta todos os dias.
Na verdade queremos ser as madames chiques do reality show da tv, que acham tudo uma loucura e brindam com suas taças de cristal às nove da manhã. Queremos ser os filhos do bilionário que têm um carro que ninguém mais no país tem e que vão a uma delegacia com cinco seguranças (dentro de outro carro importado) explicar que não tiveram culpa em atropelar e matar um ciclista.
O que nos sobra, nos faz falta, porque é essa "aparente sobra" que nos fará chegar lá em cima. Já para quem quer apenas sobreviver, o que nos sobra lhes faz tanta falta que muitas vezes eles morrem esperando que alguma ajuda venha.
Agora pergunto a todos, me incluíndo aí também: - Você mataria alguém para ter algum dos primeiros objetos citados lá em cima? Não!, todos responderemos (espero). Mas o quê temos feito para salvar essas vidas que se perdem a espera daquilo que nos sobra?
... , responderemos.
Engenheiros do Hawaii - Terra de Gigantes/Números
segunda-feira, 26 de março de 2012
Água Vida!
Das incertezas que a vida me trouxe, nunca havia pensado que tudo nessa vida é uma grande incerteza. Sem verdades plenas, certezas absolutas, repostas inquestionáveis ou soluções definitivas, vida é uma inconstante feito a maré.
Ah, como seria bom se tudo tivesse uma imutalidade, ou imobilidade eterna. Sem surpresas, sustos, ou imprevistos. Olhar para frente, para o futuro, e poder enxergar toda uma vida encaixada perfeitamente sabendo, do começo ao fim, tudo o que ela iria nos oferecer.
Ai, como isso seria um pé no saco também. Tudo quadradinho, sem friozinho na barriga, sem gargalhadas, sem lágrimas. Olhar para trás, para o passado, e perceber que se viveu conforme milhões de escolhas feitas a cada momento vivido, planejando a cada instante o "por vir".
Só que vida é água que corre por onde a natureza permite. Entra por frestas, escorre por entre os dedos e mostra a sutileza e a beleza de estar presente em todo lugar. Se adaptando à tudo, ela é flexível, ela apenas faz o que tem de fazer, flui.
Segue o fluxo, mas quando é oprimida pelas margens não cabe em si, transborda e busca sua rota. Quando já foi devastada ela derruba barrancos, invade lares, arrasta tudo o que a quiser conter para mostrar sua força contra a violência e a destruição.
Água é vida para quem morre de sede. Vida é água para quem morre cedo. Porque precisa ser como tiver de ser, no frio é quente, no calor é gelada. Antes gelo, que conforme esquenta derrete e liquidifica fazendo sua forma e ganhando vida. No final, assim como a morte, termina seu ciclo, evapora e some.
O Teatro Mágico - Camarada D'água
Ah, como seria bom se tudo tivesse uma imutalidade, ou imobilidade eterna. Sem surpresas, sustos, ou imprevistos. Olhar para frente, para o futuro, e poder enxergar toda uma vida encaixada perfeitamente sabendo, do começo ao fim, tudo o que ela iria nos oferecer.
Ai, como isso seria um pé no saco também. Tudo quadradinho, sem friozinho na barriga, sem gargalhadas, sem lágrimas. Olhar para trás, para o passado, e perceber que se viveu conforme milhões de escolhas feitas a cada momento vivido, planejando a cada instante o "por vir".
Só que vida é água que corre por onde a natureza permite. Entra por frestas, escorre por entre os dedos e mostra a sutileza e a beleza de estar presente em todo lugar. Se adaptando à tudo, ela é flexível, ela apenas faz o que tem de fazer, flui.
Segue o fluxo, mas quando é oprimida pelas margens não cabe em si, transborda e busca sua rota. Quando já foi devastada ela derruba barrancos, invade lares, arrasta tudo o que a quiser conter para mostrar sua força contra a violência e a destruição.
Água é vida para quem morre de sede. Vida é água para quem morre cedo. Porque precisa ser como tiver de ser, no frio é quente, no calor é gelada. Antes gelo, que conforme esquenta derrete e liquidifica fazendo sua forma e ganhando vida. No final, assim como a morte, termina seu ciclo, evapora e some.
O Teatro Mágico - Camarada D'água
terça-feira, 20 de março de 2012
Amor, por toda a vida
Elegante, educada, com gestos sutis e um olhar que, ao mesmo tempo, estava atento a todos ao seu redor e também estava distante. Seus cabelos grisalhos, curtos e bem penteados deixavam à mostra os pequenos brincos. Com seus quase 70, ela chegou sem muito alarde, mas todos no bar a olharam. Parecia ser um absurdo ver uma senhora ali, aquela hora.
Sentou, sorriu para a garçonete e quase que sussurando fez seu pedido, seguido por alguma explicação. Pouco tempo depois sua bebida veio, seguindo suas exigências. Ao longo das duas horas em que permaneceu ali sentada e quieta bebeu mais dois outros daquele.
O cantor continuava com seu repertório e o restante dos clientes parecia já não mais se espantar com a presença da senhora. Ao seu redor as outras mesas voltavam ao normal, as amigas solteiras de meia idade que flertavam com o cinquentão sentado no canto, os dois casais discutindo sobre a vida a dois e as lembranças da adolescência e um grupo de jovens sentados próximos à senhora.
Pegou sua bolsa na cadeira ao lado, colocou na mesa e pacientemente procurou por algo. Não retirou nada de lá de dentro, parecia apenas empurar os pertences para um lado e para o outro enquanto buscava o que tanto queria. Retirou um batom e um espelho pequeno para retocar a maquiagem. Pintou os lábios e guardou tudo dentro da bolsa. Revirou mais um pouco e retirou uma espécie de porta moedas lá de dentro, onde estava uma aliança. Colocou em sua mão esquerda, como se precisasse lembrar, ou avisar para alguém de que era casada.
Chamou a garçonete e, mais uma vez, fez um pedido. A moça foi então até o palco, onde o cantor havia feito uma pausa e procurava por canções em suas pasta. Conversaram e sorrindo ele olhou para a senhora e a chamou com as mãos. Levantou-se e segurou-a pelas mãos para ajudá-la a subir o pequeno degrau.
Sentou-se ajeitando o vestido, enquanto o cantor ajustava o microfone. Ela perguntou se poderia segurá-lo e ele a entregou. De olhos baixos, parecia olhar para a aliança reluzente, como se tivesse acabado de sair de alguma vitrine. Levantou o rosto e começou a cantar.
No final, chorando, levantou-se sob os aplausos de todos ali. Agradeceu com um aceno e um sorriso, sentou, pagou sua bebida e foi embora levando os mesmos olhares que antes a culpavam, e agora pareciam admirá-la.
Tom Jobim e Gal Costa - Eu sei que vou te amar
Sentou, sorriu para a garçonete e quase que sussurando fez seu pedido, seguido por alguma explicação. Pouco tempo depois sua bebida veio, seguindo suas exigências. Ao longo das duas horas em que permaneceu ali sentada e quieta bebeu mais dois outros daquele.
O cantor continuava com seu repertório e o restante dos clientes parecia já não mais se espantar com a presença da senhora. Ao seu redor as outras mesas voltavam ao normal, as amigas solteiras de meia idade que flertavam com o cinquentão sentado no canto, os dois casais discutindo sobre a vida a dois e as lembranças da adolescência e um grupo de jovens sentados próximos à senhora.
Pegou sua bolsa na cadeira ao lado, colocou na mesa e pacientemente procurou por algo. Não retirou nada de lá de dentro, parecia apenas empurar os pertences para um lado e para o outro enquanto buscava o que tanto queria. Retirou um batom e um espelho pequeno para retocar a maquiagem. Pintou os lábios e guardou tudo dentro da bolsa. Revirou mais um pouco e retirou uma espécie de porta moedas lá de dentro, onde estava uma aliança. Colocou em sua mão esquerda, como se precisasse lembrar, ou avisar para alguém de que era casada.
Chamou a garçonete e, mais uma vez, fez um pedido. A moça foi então até o palco, onde o cantor havia feito uma pausa e procurava por canções em suas pasta. Conversaram e sorrindo ele olhou para a senhora e a chamou com as mãos. Levantou-se e segurou-a pelas mãos para ajudá-la a subir o pequeno degrau.
Sentou-se ajeitando o vestido, enquanto o cantor ajustava o microfone. Ela perguntou se poderia segurá-lo e ele a entregou. De olhos baixos, parecia olhar para a aliança reluzente, como se tivesse acabado de sair de alguma vitrine. Levantou o rosto e começou a cantar.
No final, chorando, levantou-se sob os aplausos de todos ali. Agradeceu com um aceno e um sorriso, sentou, pagou sua bebida e foi embora levando os mesmos olhares que antes a culpavam, e agora pareciam admirá-la.
Tom Jobim e Gal Costa - Eu sei que vou te amar
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